Mortes e longas esperas voltam a chamar atenção para a regulação na Bahia.
A regulação da saúde foi criada para salvar vidas. A proposta é simples: identificar onde existe um leito disponível e encaminhar rapidamente o paciente para a unidade capaz de oferecer o tratamento adequado. No papel, é um mecanismo essencial para organizar o Sistema Único de Saúde. Na prática, porém, para milhares de famílias baianas, a palavra "regulação" se tornou sinônimo de espera, incerteza e desespero.
Nos últimos dias, a morte da recém-nascida Ludimila, que aguardava transferência para uma UTI neonatal e faleceu durante o deslocamento após a vaga ser disponibilizada, trouxe novamente o assunto para o centro do debate público. Pouco depois, outro caso chamou atenção: o do bebê Cauê, de apenas um mês de vida, morador de Aratuípe e portador de cardiopatia, que precisou aguardar uma vaga especializada enquanto permanecia internado no Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus. A situação gerou mobilização popular e protestos até que a transferência fosse viabilizada.
Mas limitar a discussão a esses dois casos seria ignorar um problema muito maior.
A fila da regulação na Bahia é invisível para quem não está dentro dela. Ela não aparece nos corredores dos hospitais. Não tem senha, painel eletrônico ou previsão de atendimento. Ela existe dentro de computadores, sistemas e protocolos. Porém, seus efeitos são sentidos à beira dos leitos, nas enfermarias lotadas e nas salas de observação onde pacientes permanecem por dias aguardando uma vaga.
Em fevereiro deste ano, um levantamento citado pela Procuradoria Geral do Estado apontou que pelo menos 225 pacientes em estado grave aguardavam transferência hospitalar na Bahia. Eram pessoas que já necessitavam de atendimento em unidades de maior complexidade, mas permaneciam à espera de uma definição (Veja aqui).
O problema ganha contornos ainda mais dramáticos quando envolve recém-nascidos e crianças. Em abril, um bebê do município de Macaúbas morreu após cerca de 20 dias aguardando transferência por regulação. A família acompanhou diariamente a expectativa de uma vaga que nunca chegou a tempo.
Também neste ano, um idoso morreu após permanecer cerca de 12 dias aguardando transferência para um leito com suporte de UTI. Segundo familiares, havia inclusive decisão judicial determinando a remoção do paciente, mas a vaga não foi disponibilizada antes do agravamento do quadro.
Os casos possuem diagnósticos diferentes. As cidades são diferentes. As idades são diferentes. O ponto em comum é sempre o mesmo: a dependência de uma vaga que não estava disponível quando era necessária.
É verdade que o governo estadual apresenta indicadores de melhora. Dados da Secretaria da Saúde da Bahia mostram que o percentual de pacientes atendidos em até 24 horas passou de 49% para 71% nos últimos anos, além da ampliação da oferta de leitos na rede pública e contratualizada (Veja aqui).
Mas os números positivos revelam apenas parte da realidade.
Quando se afirma que 71% dos pacientes são regulados em até um dia, existe outro dado implícito: milhares de pessoas continuam fora desse grupo. E é justamente entre esses pacientes que estão os casos mais complexos, aqueles que dependem de UTI neonatal, cirurgia cardíaca pediátrica, neurocirurgia, hemodiálise urgente ou outros serviços de alta complexidade que permanecem concentrados em poucos centros urbanos.
Para quem acompanha de fora, a impressão é de que a regulação virou uma espécie de loteria da sobrevivência. Algumas famílias recebem a ligação em poucas horas. Outras passam dias atualizando informações, fazendo campanhas nas redes sociais, buscando apoio político, acionando Ministério Público ou entrando na Justiça.
Os números mostram avanços, mas os casos que continuam surgindo indicam que o problema está longe de ser resolvido. Enquanto pacientes seguem aguardando transferências para tratamentos especializados, o desafio permanece o mesmo: fazer com que a estrutura disponível acompanhe a urgência de quem não pode esperar.
Redação: Vale FM











