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11/09/2026 16:20

Investigação aponta conexões entre o Banco Master, empresas e associações baianas em operações que movimentaram bilhões de reais

O escândalo do Banco Master ganhou uma nova dimensão nesta semana. Depois de uma sequência de revelações envolvendo empresários, políticos, integrantes do Banco Central e até ministros do Supremo Tribunal Federal, o presidente do STF, Edson Fachin, pediu que fossem tornadas públicas as partes não sensíveis das investigações.

O relator do caso, ministro André Mendonça, retirou o sigilo de 14 procedimentos e da petição central da Operação Compliance Zero. A abertura, porém, foi parcial. Nesta sexta-feira, 11 de setembro, a Procuradoria-Geral da República afirmou que ainda existem procedimentos relacionados à investigação que permanecem fora do conjunto divulgado e pediu ao Supremo o levantamento completo do sigilo.

Os documentos agora disponíveis permitem compreender melhor a dimensão do caso.

E, quando essa história é reconstruída, a Bahia ocupa uma posição que vai muito além da presença de políticos baianos na investigação.

Para entender: onde começa a conexão baiana

A origem dessa história remonta à antiga Ebal, a Empresa Baiana de Alimentos, responsável pela rede Cesta do Povo.

Ligado à Ebal existia o Credcesta, inicialmente utilizado como cartão de compras e benefícios.

Em 2018, já no governo Rui Costa, a Ebal foi privatizada por R$ 15 milhões. Os imóveis permaneceram com o Estado, mas a operação levou consigo a marca, os fundos de comércio e os direitos relacionados ao Credcesta.

Poucos dias depois, decretos assinados por Rui Costa permitiram ampliar o Credcesta para operações creditícias, financeiras e securitárias e reservar ao produto uma margem de até 30% da remuneração líquida dos beneficiários.

Era uma mudança fundamental. O que antes estava associado à Cesta do Povo transformava-se numa plataforma capaz de produzir empréstimos descontados diretamente da folha dos servidores.

Os direitos do Credcesta passaram posteriormente para a PKL One, ligada ao empresário baiano Augusto Ferreira Lima, o Guga. Segundo a Polícia Federal, foi justamente a carteira do Credcesta que ajudou Augusto Lima a entrar na sociedade do banco de Daniel Vorcaro, o antigo Banco Máxima, posteriormente transformado em Banco Master.

O Master não ganhava apenas com os juros pagos pelos clientes. Os empréstimos eram reunidos em carteiras de recebíveis que podiam ser revendidas para outras instituições.

Em 2024, documentos levados ao Senado apontaram aproximadamente R$ 1,6 bilhão em receitas com a revenda de carteiras do Credcesta, além de cerca de R$ 709 milhões com juros.

Esse modelo é perfeitamente legal quando os empréstimos existem e possuem lastro verdadeiro. É justamente aí que começa o problema investigado pela Polícia Federal.

A abertura dos autos nesta semana permite observar que o caso Master não é investigado apenas como uma sequência de negócios ruins ou de operações bancárias de alto risco.

A PET 15.556, uma das peças centrais agora abertas, reúne suspeitas que incluem crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, violação de sigilo e obstrução.

Outro procedimento agora aberto, a PET 15.198, mostra a PF investigando estruturas em que recursos circulavam entre banco, fundos, empresas e direitos creditórios.

A suspeita é de que, em determinados casos, negócios formalmente documentados pudessem estar sendo utilizados para conferir aparência legal a operações cuja realidade econômica precisava ser comprovada.

É exatamente essa lógica que torna a conexão baiana ainda mais importante.

Associações da Bahia aparecem na origem de bilhões

Quando o Banco Central começou a questionar o Banco Master sobre a origem de grandes carteiras negociadas com o BRB, duas associações de servidores da Bahia passaram a ocupar posição central:

Asseba — Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia

Asteba — Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia.

Em documento apresentado ao Banco Central em março de 2025, o Master indicou essas associações como originadoras de créditos que entraram numa operação bilionária.

O volume relacionado às carteiras negociadas entre Master e BRB chegou a aproximadamente R$ 12,2 bilhões.

O problema apareceu quando os investigadores começaram a verificar a origem desses créditos. As entidades, segundo a investigação, não apresentavam movimentação ou estrutura compatível com a geração de um volume tão elevado de empréstimos.

A PF também encontrou procurações que permitiam ao empresário Augusto Lima representá-las perante instituições financeiras e identificou coincidências cadastrais entre as associações e estruturas empresariais ligadas a Lima.

Asseba e Asteba realmente originaram bilhões de reais em empréstimos ou seus nomes foram utilizados para dar uma origem formal às carteiras?

Um banco pode conceder milhares de empréstimos consignados, juntar esses contratos e vender os direitos de receber as prestações futuras para outra instituição, isso é normal no mercado financeiro, o problema muda completamente se os contratos vendidos não existirem.

Se uma instituição afirma possuir, por exemplo, R$ 1 bilhão em empréstimos concedidos a milhares de pessoas, vende esses créditos para outro banco e recebe o dinheiro, mas depois se descobre que parte dos clientes nunca tomou aqueles empréstimos, o ativo vendido pode ser fictício.

É exatamente a existência e o lastro de parte dessas carteiras que estão sob investigação. Por isso a pergunta central do escândalo passou a ser extremamente simples: Os créditos existiam de verdade?

O atual Governo da Bahia também entra na linha do tempo

Durante a administração de Jerônimo Rodrigues, um relatório do Coaf identificou aproximadamente R$ 140,1 milhões em movimentações entre o sistema estadual de folha e a Asseba entre maio de 2024 e novembro de 2025.

O Governo da Bahia contesta a interpretação de que tenha entregue dinheiro público à associação. Segundo o Estado, os valores correspondiam a descontos autorizados nos salários dos próprios servidores, que eram apenas processados pela folha e posteriormente repassados à entidade.

Segundo o relatório de inteligência financeira, depois de receber esses valores, a Asseba teria transferido aproximadamente: R$ 101,3 milhões para o Banco Master e R$ 21,7 milhões para empresas ligadas a Augusto Lima.

Portanto, a questão não é simplesmente por que o Governo da Bahia repassou o dinheiro, mas porque recursos descontados dos salários de servidores e destinados a uma associação terminaram, segundo o Coaf, no Banco Master e em empresas ligadas a um de seus ex-sócios?

Secretário do atual governo aparece na investigação

Existe ainda outra conexão direta com a atual administração estadual. Eduardo Sodré, enteado do senador Jaques Wagner, ocupa o cargo de secretário estadual do Meio Ambiente no governo Jerônimo Rodrigues.

Sodré foi alcançado pela nona fase da Operação Compliance Zero, Segundo a Polícia Federal, ele manteve contatos com Augusto Lima relacionados a pagamentos.

Em mensagem de setembro de 2025 reproduzida na PET 16.229, Eduardo teria cobrado Lima afirmando que no dia seguinte venceriam boletos de valores elevados. Pouco mais de um mês depois, a PKL One, justamente a empresa ligada ao Credcesta e a Augusto Lima, transferiu R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, cuja sócia é Bonnie Bonilha, esposa de Eduardo Sodré.

A empresa sustenta que prestou serviços reais, emitiu notas fiscais e declarou os recursos.

Não há, até o momento, evidência pública de que o governador Jerônimo Rodrigues tenha recebido qualquer vantagem ou participado das irregularidades investigadas

Jaques Wagner está em outro nível da investigação

A situação do senador Jaques Wagner é diferente. A PF investiga possíveis benefícios recebidos por Wagner e seu núcleo familiar e procura descobrir se houve alguma contrapartida política em favor de Augusto Lima ou do Banco Master.

Essa investigação aparece principalmente no INQ 5.026 e nas PETs 16.032, 16.201 e 16.229.

Entre os fatos investigados estão:

·Um apartamento de aproximadamente R$ 2,45 milhões em Salvador;

·Viagens em aeronaves ligadas a Augusto Lima;

·Ingressos de alto valor;

·Pagamentos relacionados ao núcleo familiar;

·Contatos entre Wagner e Augusto Lima sobre assuntos de interesse do Master.

Wagner nega ter recebido propina ou praticado atos ilegais.

A Bahia não está na periferia do escândalo Master. Ela aparece na origem de um dos produtos que ajudaram o banco a crescer, na estrutura de crédito consignado utilizada para formar carteiras, nas associações apresentadas como originadoras de bilhões de reais em créditos e na investigação sobre agentes políticos que mantiveram relações com personagens centrais do caso.

Para a Bahia, portanto, esta história está longe de encerrada.


Da redação: Vale FM

 







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