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03/09/2026 15:25

As chances de permanência do fenômeno climático é de aproximadamente 100%, segundo OMM.

O fenômeno El Niño deve ganhar ainda mais força nos próximos meses e permanecer ativo até fevereiro de 2027, aumentando o risco de extremos climáticos em diferentes partes do planeta. A previsão foi divulgada nesta quinta-feira (3) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que aponta uma probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até fevereiro.

A previsão mais recente indica que o El Niño poderá atingir intensidade muito forte, com pico previsto para o fim de 2026. A OMM afirma que as temperaturas das águas do Pacífico Equatorial estão excepcionalmente elevadas (cerca de 8% acima do habitual) e que os modelos climáticos apresentam forte concordância sobre a continuidade e o fortalecimento do fenômeno.

É importante fazer uma distinção: os quase 100% citados pela OMM correspondem à probabilidade de o El Niño persistir até fevereiro de 2027, e não significam que haverá 100% de chance de todas as regiões sofrerem catástrofes. A intensidade e o tipo de impacto variam conforme a localização, a época do ano e a interação com outros fenômenos climáticos.

Brasil terá efeitos diferentes entre as regiões

No Brasil, a perspectiva é de um contraste significativo. Os modelos analisados por órgãos federais indicam maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e de precipitação abaixo da média em áreas do Norte e Nordeste.

O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Os modelos também indicam 100% de probabilidade de permanência pelo menos até o início de 2027.

Norte e Nordeste sob risco de seca

A redução das chuvas é uma das principais preocupações para o Norte e o Nordeste, especialmente com a aproximação de 2027.

O INPE explica que o El Niño costuma favorecer condições mais secas no norte e leste da Amazônia e no norte do Nordeste. A combinação de menor precipitação e temperaturas acima da média pode provocar déficit hídrico, redução da umidade do solo, dificuldades para recuperação de reservatórios e aumento do risco de incêndios florestais.

No Nordeste, o problema pode atingir principalmente municípios do interior que dependem de açudes e barragens para abastecimento humano e atividades agropecuárias. Uma eventual redução ou atraso das chuvas pode prolongar períodos de estiagem e dificultar a recuperação dos reservatórios.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) também aponta risco de agravamento da seca no Norte e Nordeste, além de aumento das temperaturas e possibilidade de maior ocorrência de queimadas. O meteorologista Gilvan Sampaio, especialista em El Niño do INPE, já havia alertado que os impactos sobre o norte do Nordeste e o norte e leste da Amazônia são mais relevantes no início de 2027. Ele ressalta, porém, que a intensidade das secas ainda depende de outros fatores, especialmente das condições do Oceano Atlântico Tropical.

Sul pode ter chuvas intensas, enchentes e deslizamentos

No outro extremo do país, o cenário é diferente. A influência do El Niño costuma favorecer chuvas acima da média na Região Sul, principalmente durante a primavera e o verão. O atual cenário aumenta a preocupação com episódios de chuva volumosa, temporais, alagamentos, enchentes de rios e deslizamentos. A previsão oficial para setembro, por exemplo, já indica precipitação acima da média em áreas do Sul, enquanto setores do Norte e Nordeste apresentam tendência de volumes abaixo da média.

O pesquisador Marcus Suassuna, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), apontou a Região Sul como uma das áreas de maior preocupação no curto prazo, diante da possibilidade de chuvas acima da média, temporais, cheias de rios, enchentes, alagamentos e movimentos de massa. O meteorologista Gilvan Sampaio também destaca que eventos fortes a muito fortes de El Niño aumentam a probabilidade de chuvas intensas e volumosas no Sul durante o fim do inverno e a primavera.

Centro-Oeste e Sudeste também podem enfrentar extremos

O contraste climático não deve ficar restrito ao Norte, Nordeste e Sul. No Centro-Oeste, parte do Sudeste e áreas da Amazônia Legal, a combinação entre temperaturas elevadas e menor volume de chuva pode favorecer baixa umidade, ondas de calor, déficit hídrico e incêndios. No Sudeste, os efeitos podem ser mais variados. O El Niño pode favorecer temperaturas acima da média e episódios de calor, mas também há possibilidade de chuvas fortes em determinados períodos, principalmente pela interação do fenômeno com frentes frias e outros sistemas atmosféricos.

O INMET ressalta que mesmo um El Niño muito forte não produz necessariamente os mesmos efeitos em todas as regiões. A intensidade do fenômeno aumenta as probabilidades de alterações importantes nos padrões de chuva e temperatura, mas não permite determinar antecipadamente a ocorrência de uma catástrofe específica em determinado município.


Imagem: Istock

Um fenômeno que pode afetar o clima de vários continentes

Os efeitos do El Niño não ficam restritos à América do Sul. O aquecimento anormal do Pacífico altera a circulação atmosférica e pode modificar os regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. A OMM prevê aumento do risco de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos. O fenômeno também pode afetar agricultura, disponibilidade de água, geração de energia, pesca e preços de alimentos.

Na América Latina, o Peru já colocou cerca de 1,2 milhão de pessoas em áreas de risco, segundo autoridades locais. A expectativa é de aumento do risco de enchentes e deslizamentos em pelo menos dez regiões do país a partir de novembro. Na Índia, a influência do El Niño aparece associada à redução das chuvas de monção. O país registrou déficit de precipitação em agosto e espera chuva abaixo da média em setembro, situação que pode prejudicar culturas como algodão, soja, milho e leguminosas.

Em partes da Ásia, o fenômeno pode provocar períodos de seca, calor extremo e alterações nas monções, enquanto determinadas áreas podem registrar episódios de chuva intensa. Na África e em outras regiões tropicais, também existe risco de secas prolongadas, redução da produção agrícola e incêndios.

Historicamente, grandes episódios de El Niño estiveram associados a enchentes, secas, incêndios florestais, perdas agrícolas e aumento das temperaturas globais. O evento de 1997-1998, por exemplo, provocou impactos severos em diversas regiões do mundo.

Risco de novos recordes de temperatura

Outro ponto de preocupação é a temperatura média global. A OMM afirma que o El Niño, por si só, é um fenômeno natural, mas seus efeitos ocorrem atualmente sobre um planeta que já apresenta temperaturas oceânicas e atmosféricas muito elevadas. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que o fenômeno já provoca impactos relacionados a secas e enchentes e que esses efeitos devem aumentar à medida que o El Niño se intensificar. Já o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também alertou para o risco de uma nova escalada dos eventos climáticos extremos.

A OMM projeta que o atual episódio alcance intensidade muito forte antes de atingir seu pico no fim de 2026. O índice Niño 3.4, utilizado para acompanhar a temperatura da superfície do Pacífico Equatorial, já apresentou anomalias excepcionalmente elevadas, enquanto águas abaixo da superfície chegaram a registrar temperaturas mais de 8°C acima da média em algumas áreas durante julho e início de agosto.

Previsão não significa certeza de desastre

Apesar do cenário de alerta, é válido ressaltar que um El Niño forte não significa automaticamente desastre em todas as regiões. Os impactos dependem da interação entre o Pacífico, os oceanos Atlântico e Índico, circulação atmosférica, condições anteriores do solo e dos reservatórios, além de fatores locais.

O especialista do CEMADEN José Marengo estima que os efeitos do fenômeno já podem ser sentidos no Brasil e devem ganhar importância ao longo dos próximos meses. Já Christopher Cunningham Castro, líder do Grupo de Estudos de Fogo do CEMADEN, destaca a preocupação com a combinação entre calor, baixa umidade e vegetação mais seca, que pode aumentar o risco de incêndios.

O cenário previsto para os próximos meses, portanto, é de maior instabilidade climática, com possibilidade de extremos opostos: enquanto determinadas áreas poderão enfrentar falta de chuva, calor e incêndios, outras poderão registrar precipitações volumosas, enchentes e deslizamentos. A principal recomendação dos órgãos meteorológicos é que governos, municípios, setores de agricultura, saúde, energia e defesa civil utilizem as previsões sazonais para antecipar medidas de prevenção, principalmente nas áreas historicamente mais vulneráveis.

 

Da Redação CSFM







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