A educadora de 26 anos morreu na última sexta-feira (28) após ser atendida duas vezes em unidades de saúde do RJ.
A morte da professora de história Giulia Silva de Araújo, de 26 anos, na última sexta-feira (28), depois de procurar atendimento médico duas vezes em um hospital municipal da zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), chamou atenção para uma questão que pode gerar dúvidas até mesmo em situações de emergência: como diferenciar uma crise de ansiedade de um problema cardíaco?
Segundo os familiares, Giulia apresentou dor no peito e outros sintomas que, na avaliação deles, eram compatíveis com um problema cardíaco. A família afirma que ela recebeu diagnóstico de crise de ansiedade e teve alta nas duas ocasiões. Na segunda ida ao hospital, ainda segundo os parentes, ela teria apresentado sintomas mais intensos e chegado a desmaiar.
A unidade, por outro lado, informou que a professora recebeu atendimento, passou por exames previstos em protocolo para casos cardíacos agudos e que os resultados estavam dentro dos parâmetros de normalidade, incluindo o eletrocardiograma. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio também afirmou que a paciente recebeu assistência de acordo com o quadro clínico apresentado.
O episódio serve de alerta para uma questão importante: dor no peito, falta de ar, palpitação, tontura, suor e sensação de morte iminente podem aparecer tanto em uma crise de ansiedade quanto em uma emergência cardíaca. E aqui há um ponto fundamental: não é seguro tentar fazer essa diferenciação sozinho em casa.
Por que os sintomas podem ser confundidos?
O infarto agudo do miocárdio acontece quando o músculo do coração deixa de receber sangue e oxigênio adequadamente, geralmente devido à obstrução de uma artéria coronária. É uma emergência médica e quanto mais rápido o atendimento, maiores são as possibilidades de reduzir o dano ao coração. Já uma crise de ansiedade ou de pânico envolve uma ativação intensa da resposta de alerta do organismo. O corpo pode liberar substâncias que provocam aumento dos batimentos cardíacos, respiração acelerada, tremores, suor, tontura e sensação de perigo.
O problema é que os dois quadros podem produzir manifestações físicas muito semelhantes. Dor ou desconforto no peito, falta de ar, náusea, tontura e palpitações podem ocorrer em ambos. Por isso, uma pessoa com dor no peito não deve concluir que se trata de ansiedade apenas porque é jovem, está nervosa ou já teve crises semelhantes anteriormente.
Quais são os sinais de alerta em um infarto?
O sintoma mais conhecido é a dor ou pressão no peito, mas o quadro pode assumir diferentes formas. Entre os sinais que exigem atenção estão:
- Pressão, aperto, peso ou dor no centro do peito;
- Desconforto que dura alguns minutos ou desaparece e retorna;
- Dor que pode se espalhar para um ou ambos os braços;
- Dor ou desconforto nas costas, pescoço, mandíbula ou parte superior do abdômen;
- Falta de ar;
- Suor frio;
- Náusea ou vômito;
- Tontura ou sensação de desmaio;
- Fraqueza ou cansaço incomum;
- Palpitações
O Ministério da Saúde destaca também palidez, suor frio, falta de ar e sensação de desmaio entre os sinais associados ao infarto. Nas mulheres, os sintomas também podem aparecer de maneira menos característica. Falta de ar, náusea, cansaço incomum, desconforto nas costas ou nos braços e até ansiedade podem acompanhar um problema cardíaco. Portanto, não existe uma regra segundo a qual infarto necessariamente provoca uma dor insuportável. Alguns episódios começam com desconforto leve e podem evoluir ou apresentar períodos de melhora e retorno dos sintomas.
E a crise de ansiedade?
Uma crise de ansiedade ou de pânico também pode provocar sintomas físicos intensos. É possível ocorrer:
- Coração acelerado;
- Sensação de falta de ar;
- Aperto ou dor no peito;
- Tremores;
- Suor;
- Tontura;
- Formigamento;
- Náusea;
- Sensação de descontrole;
- Medo intenso;
- Sensação de que algo muito grave está acontecendo;
- Medo de morrer.
Em uma crise de pânico, o medo intenso e repentino costuma ocupar lugar importante entre os sintomas. Entretanto, isso não significa que a presença de medo permita concluir que o problema é psicológico. A própria Associação Americana do Coração alerta que os sintomas de ataque de pânico podem se parecer com os de um infarto e recomenda avaliação médica quando existe dúvida. Portanto, em casa, muitas vezes não é possível saber de qual dos dois problemas se trata.
Algumas características podem aumentar ou diminuir a suspeita de determinada condição, mas não substituem a avaliação médica. No infarto, por exemplo, é mais preocupante uma dor ou pressão no peito associada a falta de ar, suor frio, náusea, tontura ou irradiação para braço, costas, pescoço ou mandíbula. Já na ansiedade, podem predominar medo intenso, sensação de perda de controle, respiração acelerada, tremores e formigamentos. Além disso, uma pessoa pode ter ansiedade e, ao mesmo tempo, apresentar um problema cardíaco.
Em situações como essa, o eletrocardiograma (ECG) é um dos exames fundamentais na avaliação de uma pessoa com suspeita de síndrome coronariana aguda. Porém, a investigação pode envolver outros exames e avaliações. Um dos principais marcadores utilizados é a troponina, uma proteína liberada na circulação quando existe lesão do músculo cardíaco. No Brasil, as diretrizes de atendimento à dor torácica indicam a utilização de troponina e, em determinadas situações, a realização de dosagens seriadas. Isso significa que um resultado inicial normal nem sempre encerra a investigação, dependendo do quadro clínico e do momento em que o exame é realizado. A avaliação médica considera, portanto, o conjunto de informações: sintomas, histórico, exame físico, eletrocardiograma e exames laboratoriais, entre outros recursos quando necessários.
O que fazer passo a passo diante de uma dor no peito?
1. Pare a atividade. Se a pessoa estiver caminhando, trabalhando ou fazendo esforço, deve interromper a atividade e permanecer em repouso.
2. Observe os sintomas. Verifique se existe dor ou pressão no peito, falta de ar, suor frio, náusea, tontura, desmaio ou dor irradiada para braço, costas, pescoço ou mandíbula.
3. Não tente diagnosticar em casa. Não conclua que é ansiedade apenas porque a pessoa está nervosa ou porque já teve crises anteriormente. Dor no peito de causa desconhecida deve ser tratada como potencial emergência.
4. Ligue para o SAMU 192 ou número correspondente ao socorro emergencial em sua cidade. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) funciona 24h e deve ser acionado imediatamente diante de situações como problemas cardiorrespiratórios, dor súbita no peito e suspeita de infarto.
5. Não deixe a pessoa dirigir. O ideal é aguardar o atendimento de emergência. A equipe do SAMU pode iniciar a avaliação e o atendimento ainda no local e organizar o transporte adequado.
6. Aguarde as orientações da equipe. A pessoa deve permanecer em repouso enquanto aguarda o socorro.
7. Se houver perda de consciência e a pessoa ficar inconsciente e não respirar normalmente, a situação muda para uma emergência ainda mais grave. O serviço de emergência deve ser acionado imediatamente e, conforme orientação do atendente, podem ser iniciadas manobras de ressuscitação cardiopulmonar.
O que não fazer
Diante de uma dor no peito, evite:
- Esperar horas para ver se passa;
- Atribuir o sintoma automaticamente à ansiedade;
- Fazer exercício para "testar" se a dor melhora;
- Dirigir sozinho até o hospital;
- Tomar medicamentos por conta própria;
- Oferecer medicamentos de outra pessoa;
- Minimizar os sintomas porque o paciente é jovem;
- Interromper a investigação médica apenas porque um primeiro exame apresentou resultado normal, quando os sintomas continuam ou retornam.
Por que a idade não elimina o risco?
O infarto é mais frequente em pessoas com fatores de risco cardiovascular, como tabagismo, hipertensão, colesterol elevado, diabetes, sedentarismo e histórico familiar. Contudo, ser jovem não transforma dor no peito em sinônimo de ansiedade. O próprio Ministério da Saúde destaca que o reconhecimento rápido dos sintomas é fundamental porque o infarto exige tratamento imediato.
No caso da Giulia, de 26 anos, a semelhança entre sintomas cardíacos e manifestações de ansiedade tornam ainda mais importante evitar conclusões precipitadas sobre o que uma pessoa está sentindo. O recomendado ainda é procurar atendimento médico e passar todas as informações ao especialista.
Da Redação CSFM







