Mesmo com discurso de regulamentação, o risco permanece e as consequências continuam atingindo toda a sociedade
O que foi anunciado como um evento voltado à prática de manobras com motocicletas acabou marcado por uma sequência de acidentes graves, morte e vários feridos durante três dias em Castro Alves, entre sexta-feira (17) e domingo (19). O saldo levanta questionamentos que vão além da imprudência individual e expõe falhas de organização, fiscalização e, principalmente, de prioridade no debate público.
Logo no sábado (18), uma colisão frontal entre uma motocicleta e um carro, na BA-120, resultou na morte de um homem. Ele foi arremessado para fora da pista e encontrado sem vida às margens da rodovia. No mesmo trecho, praticamente sob o mesmo contexto de intensa movimentação ligada ao evento, outro motociclista sofreu fratura exposta na perna e suspeita de traumatismo craniano após atingir um veículo, que ficou parcialmente destruído.
Os registros não se limitaram à rodovia. Na área urbana, outro acidente envolvendo motociclista e carro deixou mais um ferido em meio ao fluxo elevado gerado pela concentração de participantes. Vídeos que circularam nas redes sociais ao longo do fim de semana mostram uma sequência de quedas, colisões e perda de controle. Em algumas imagens, motos atingem outras motos, invadem espaços com público próximo e chegam a ser lançadas sobre pessoas. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma repetição de situações previsíveis dentro de uma prática que, por natureza, exige desequilíbrio e risco constante.
O cenário contrasta com o discurso de incentivo à regulamentação do “grau”. O governador Jerônimo Rodrigues já defendeu publicamente a criação de espaços específicos para a prática, chegando a compará-la a esportes organizados, como o futebol. A ideia, na teoria, é organizar para reduzir impactos. Na prática, o que se viu em Castro Alves foi exatamente o oposto: mesmo dentro de um contexto direcionado, os acidentes aconteceram em sequência, com consequências graves.
Em outra declaração, publicada em dezembro de 2025, o próprio governador admitiu a possibilidade de discutir investimentos públicos voltados ao “grau”, desde que haja regulamentação. Segundo ele, qualquer ação dependeria de segurança jurídica e de aprovação de um marco legal. A fala reforça que o tema já ultrapassou o campo do debate informal e entrou na esfera de possível destinação de recursos públicos, o que amplia ainda mais a responsabilidade sobre os riscos envolvidos (Veja aqui).
O problema também não se limita a quem decide participar. Cada acidente grave ocupa leitos hospitalares, mobiliza equipes médicas e pressiona unidades de saúde que já operam no limite. São atendimentos complexos, com vítimas politraumatizadas que permanecem por semanas ou meses internadas. Na prática, isso impacta diretamente outras pessoas que dependem do sistema público de saúde.
Diante disso, o que aconteceu em Castro Alves não pode ser tratado como algo pontual ou inevitável. Há um padrão claro: eventos com grande concentração, prática de alto risco e consequências que recaem sobre toda a sociedade. A proposta de regulamentação pode até partir de uma intenção de organização, mas os fatos mostram que, mesmo em ambiente direcionado, o risco permanece elevado e os impactos continuam sendo sentidos fora da pista.
Enquanto isso, o impacto ultrapassa a pista e se espalha pelas ruas, atingindo quem participa e quem apenas está por perto, em uma prática onde o erro não é exceção, é parte do próprio funcionamento.
Redação: Vale FM







