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16/01/2026 10:00

O gênero permanece fortemente ligado ao Carnaval da Bahia e à identidade cultural de Salvador

O axé music, gênero que por décadas ocupou posição central na música popular brasileira, atravessa um período de retração e perda de protagonismo no cenário nacional. Nos últimos anos, artistas historicamente associados ao estilo passaram a transitar por sonoridades próximas do pop, do sertanejo e da música eletrônica, reduzindo a presença do axé em rádios, paradas musicais e grandes lançamentos. Cantoras e cantores que se consolidaram como símbolos do gênero, como Ivete Sangalo, hoje mantêm repertórios mais amplos e híbridos, o que evidencia a mudança de mercado e o enfraquecimento do rótulo “axé music” como força dominante.

O surgimento do axé music remonta oficialmente a meados da década de 1980, em Salvador. O marco inicial costuma ser associado ao ano de 1985, quando Luiz Caldas lançou a canção “Fricote”, que ganhou projeção nacional e passou a ser considerada o ponto de partida do gênero. A partir dali, consolidou-se uma mistura de ritmos afro-baianos, frevo, reggae, ijexá, samba e influências da música pop, criando uma identidade sonora própria ligada diretamente ao Carnaval da Bahia.


Luiz Caldas em 1985. Imagem: Divulgação

Entre o final dos anos 1980 e o início da década de 1990, o axé music alcançou rápida expansão. Bandas e artistas passaram a dominar trios elétricos, blocos carnavalescos e, posteriormente, programas de televisão e grandes eventos em todo o país. Nomes como Banda Eva, liderada inicialmente por cantores que depois seguiram carreira solo, Chiclete com Banana, comandado por Bell Marques, Durval Lelys, Ricardo Chaves, Asa de Águia e Daniela Mercury marcaram esse período de consolidação. Daniela Mercury, inclusive, ampliou a visibilidade do gênero internacionalmente no início dos anos 1990, ao incorporar elementos da cultura afro-baiana em apresentações de grande alcance.


Imagens: Reprodução/ Redes Sociais/ Divulgação

Durante aproximadamente duas décadas, entre os anos 1990 e o início dos anos 2000, o axé music exerceu soberania no Carnaval de Salvador e manteve forte presença no mercado fonográfico nacional. O gênero passou por adaptações internas, incorporando novos formatos e dialogando com outras vertentes populares. No final dos anos 1990, grupos como É o Tchan introduziram uma estética mais voltada para a dança e o entretenimento de massa, ampliando ainda mais o alcance comercial do axé e consolidando-o como fenômeno cultural e midiático.


Banda É o Tchan! nos anos 90. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais

Há ainda a tradição dos Filhos de Ghandy, grupo icônico do Carnaval baiano. Criado em 1949, no bairro do Curuzu, em Salvador, o bloco Filhos de Gandhy surgiu a partir da iniciativa de estivadores do Porto de Salvador e se consolidou como uma das mais tradicionais e simbólicas entidades do carnaval da capital baiana. Inspirado nos princípios de paz e não violência do líder indiano Mahatma Gandhi, o bloco adotou vestimentas brancas, colares azuis e turbantes, além do ritmo ijexá como marca musical, tornando-se referência na valorização da cultura afro-baiana. Ao longo das décadas, os Filhos de Gandhy passaram a desfilar de forma marcante no domingo de carnaval, transformando-se em patrimônio cultural do carnaval de Salvador e em um dos principais símbolos de identidade, resistência e ancestralidade da festa.


Filhos de Ghandy no circuito do Carnaval de Salvador. Foto: Arthur Garcia/ Agecom

A partir da década de 2010, no entanto, o gênero passou a enfrentar dificuldades de renovação. O surgimento de novos estilos populares, como o sertanejo universitário e, posteriormente, o crescimento do funk, da sofrência, do arrocha e dos paredões de som reduziu o espaço do axé no mercado nacional. Paralelamente, artistas consagrados passaram a adaptar seus repertórios para manter competitividade, enquanto novos nomes ligados exclusivamente ao axé encontraram obstáculos para alcançar projeção semelhante à das gerações anteriores. Saulo Fernandes, ex-Banda Eva, por exemplo, ainda é um desses nomes da dita resistência do axé music baiano.


Saulo Fernandes nos anos 2000. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais

E, mesmo tendo completado 40 anos em 2024, o axé music segue em processo de resistência. O gênero permanece fortemente ligado ao Carnaval da Bahia e à identidade cultural de Salvador, mas enfrenta o desafio de se reinventar e dialogar com novas gerações sem perder suas características históricas. Entre ciclos de ascensão, domínio e retração, o axé continua presente, ainda que distante do protagonismo que exerceu por décadas na música brasileira.

 

Da Redação CSFM







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