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1 29/12/2018 15:06

Fez questão de deixar esse mundo em 24 de dezembro, quando todos estavam preocupados em preparar a ceia de Natal, comprar os presentes para os familiares e amigos. Não importam que estivessem ou não comemorando os 2018 anos de Jesus Cristo, o Salvador do homem, Luiz Carlos Franco, aos 77 anos, deixou esse mundo da mesma forma em que viveu: com timidez e simplicidade.

Goleiro da Seleção de Itabuna, nos anos 1960, heptacampeã amadora da Bahia, fora de campo nem parecia uma estrela da primeira grandeza do futebol baiano como maior parte dos seus colegas, principalmente os que marcavam os gols decisivos para a vitória. Nos treinos, treinava com seriedade, quem sabe para ultrapassar a capacidade técnica e física dos colegas que jogavam debaixo dos três paus.

Também não era fácil para segurar a condição de titular na Seleção Amadora de Itabuna e no Itabuna Esporte Clube, que tantos goleiros de prestígio lhe antecederam, como Plínio Assis, Betinho, Ivanildo, Asclepíades, e por aí afora. Os títulos foram conquistados, e ele [Luiz Carlos] lá atrás, nos três paus, fechando o gol, voando quando precisava para pegar ou espalmar os tirambaços no lugar onde as corujas dormem, como diziam os narradores esportivos.

Uma segurança! Como era do seu temperamento, praticamente não concedia entrevistas e quando era procurado, falava pouco, analisava as partidas ao seu modo, com poucas palavras. E não era por menos que nossos colegas repórteres de campo corriam – mesmo com o grande peso de suas maletas – para entrevistar o pessoal da linha de frente, que tinham marcado os gols da importante vitória.

Pra Luiz Carlos pouco importava o assédio da mídia! O que valia, mesmo, era a vitória sobre a seleção adversária, principalmente nos jogos do final do campeonato, quando era possível levantar a taça. Comportado como sempre, estava lá o goleiro que fechou o gol, comemorando sem os grandes excessos, mas sempre presente com os companheiros de equipe.

Quem não conheceu Luiz Carlos não imagina a sua transformação quando entrava em campo. Em baixo dos três paus era quem dirigia a equipe – ao lado do magistral Tombinho, no meio de campo. Assim que ouvia o apito do árbitro, comandava a equipe como ninguém, de um modo que em nada lembrava a timidez e simplicidade. Aos gritos, corrigia a colocação em campo, desde os companheiros de defesa, meio de campo e ataque.

Quando trilava o apito final, se recolhia ao seu mundo interior, expressando seu entusiasmo e alegria ao seu modo, no recôndito do seu ser, como fazem todos os grandes goleiros. E assim, Luiz Carlos colecionou títulos, a exemplo do hexacampeonato amador da Bahia, conquistado em Alagoinhas, pelo placar de 1 X 0, num dos jogos mais difíceis e emocionantes.

No Itabuna Esporte Clube, já profissionalizado, mantinha a mesma conduta e poucos demonstrava a insatisfação de ser escalado como o goleiro reserva ou mesmo não constar na lista do que participariam do jogo. A tudo encarava com a mais perfeita normalidade, própria das pessoas que sabem o que quer e compreendem o que é viver em coletividade, comportamento próprio de um clube de futebol.

Às vezes eu comparava sua atuação em campo à sua outra profissão, a de bancário, desde os tempos do Banco de Fomento do Estado da Bahia, que depois se transformaria no Banco do Estado da Bahia (Baneb). Pra mim, como goleiro, Luiz Carlos trazia para o campo a mesma tranquilidade do “caixa” do banco: aquele que não poderia errar, nem pra mais, nem pra menos.

De uma família de boleiros, seu irmão Fernando Barrão não conseguiu viver tanto tempo e nos deixou cedo. Já o outro irmão, Jorge, não alcançou o estrelato esportivo e foi trabalhar na Ceplac. Já a sua irmã Lívia, também bancária como Fernando e Luiz Carlos, sempre se destacou nos babas jogados no antigo campinho da Banca de Peixe – frente a sua residência –, jogando no meio dos meninos.

Deixou o futebol profissional, mas não abandonou o esporte e foi cuidar de sua família – mulher e três filhos –, seu trabalho no banco e mais uma faceta, a de cacauicultor, todas com a mesma galhardia de sempre. Como nos mostra a história, a vida de um homem que adota viver com simplicidade, pode ser lembrada pelo seu hábito e sua habilidade em ser o primeiro, sem que para isso fosse obrigado a demonstrar vaidade ou snobismo.

Assim como viveu, escolheu (será?) uma maneira e data em que as pessoas estivessem por demais ocupadas com os festejos natalinos, férias e outras atividades, para não perturbá-las, incomodá-las. Foi o homem ficou a fama – ou melhor o conceito –, próprias daqueles que sabem passar pela vida exercendo o papel que cabe a si mesmo, construindo a base de sua existência nos valores e princípios que soube adotar.

Completou o ciclo: nascimento, crescimento e morte com o que tinha de melhor.

* Radialista, jornalista e advogado

 

 


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